Como estava
dizendo, eu sempre dormia um pouco enquanto estava ouvindo o coração do
Leonardo por 20 a 30 minutos. Eu não precisava controlar, uma maquina que
fazia. Eu podia ler um livro, escutar musica ou falar ao telefone, como muitas
mulheres faziam. Mas eu gostava mais de ficar ouvindo o coração do Leonardo
bater, fazer daimoku (oração budista) ao mesmo tempo e às vezes quando eu não tinha
dormido bem na noite anterior, dormia um pouco. Uma vez, a enfermeira deixou-me
dormindo, mesmo depois do exame já ter terminado, pois ficou com pena de me
acordar.
Este
acompanhamento era necessário comigo por causa da diabete e também porque a
diabete afetou um pouco o meu fígado. Ou seja, de um jeito ou de outro, eu
teria um parto induzido.
O que seria
um parto induzido? Um parto induzido, como o próprio nome diz, seria um parto
onde as enfermeiras e médicos precederiam de uma forma que iriam antecipar, forçar
as contrações que uma mulher grávida teria normalmente ate o dia de ter o baby.
Uma gravidez normal, a mulher teria as contrações, a bolsa arrebentada no tempo
natural do organismo dela e do baby. Isto poderia acontecer gradativamente dia após
dia e sendo natural, não maltrataria tanto a mulher. No caso de indução, o
processo acontece de uma hora para outra, de um dia para outro um atrás do
outro e as dores são maiores do que se viessem naturalmente.
Confesso
que não gostei muito de saber que seria induzida. Cheguei a pensar que seria
melhor então que fizessem a cesariana, mas aqui na Inglaterra, Cesariana e só
no ultimo caso, se realmente for necessário. Eles tentam ao maximo fazer com
que o parto, induzido ou natural, termine em um parto normal.
No dia que
a medica veio me contar que eu teria um parto induzido eu não consegui
controlar minhas emoções e chorei na frente delas. Disse que não queria aquilo
porque se eu não conseguisse empurrar o baby e sair natural, que elas as médicas
tentariam tirar o meu baby com aparelhos e eu não gostava da idéia de saber que
meu baby poderia ser puxado com um aparelho que mais parecia um desentupidor de
pia fazendo pressão na cabeça dele para ser puxado ou um aparelho de ferro caso
o primeiro não funcionasse. Não conseguia imaginar um parto bom e seguro
naquelas condições.
As medicas
e enfermeiras tentaram me acalmar e explicaram todo o processo da indução e também
reafirmaram que era perigoso para o baby e para eu continuar a gravidez ate as
40 semanas ( 9 meses) ou ate as 42 semanas ( 9 meses e duas semanas) caso o
baby não saísse no tempo certo. O risco de o baby crescer de mais e ter
problemas mais sérios por causa do açúcar, era muito provável e eles não queriam
arriscar a minha vida e nem a do baby.
Fui para
casa ainda com os olhos cheio de lagrimas e liguei para o Jolly para explicar
tudo. Logo depois decidi fazer daimoku para que eu tivesse o parto mais seguro,
tranqüilo para mim e o Leonardo. Que fosse como uma obra de arte. Que nem eu e
nem o Leonardo sofreríamos com o parto.
Eu na
verdade não tinha noção nenhuma de como seria tudo. Nem de como seria as dores
das contrações, apesar de varias amigas e outras grávidas no curso de pré-
natal terem compartilhado experiências de outras pessoas. Não conseguia
imaginar ou sentir como seria. No fundo isto foi um ponto positivo para mim, não
foquei nos pontos negativos que colocavam sobre as dores, contrações etc... Apenas
pensava que tinha que orar para ser capaz de fazer tudo e ajudar o Leonardo a
vir neste mundo de forma segura.
Em uma das
consultas com as medicas, me foi passado à data do dia 18 para eu me apresentar
no hospital para iniciar a indução. Nós podíamos escolher o dia 16 que seria o
aniversario do Jolly, mas ele preferiu que Leonardo tivesse outra data para que
no futuro ele não se sentisse culpado quando quisesse passar o aniversario dele
com namorada, viajando ou com amigos.
Duas
semanas antes do dia 18, marquei na minha casa daimoku tosso, de uma a hora e
meia a duas horas, e convidei os membros da minha comunidade ( Grupo em
Portugal) e alguns amigos de outras organizações para recitar comigo. Todos os
dias viam alguém. Às vezes a sala estava cheia e às vezes via uma pessoa, mas
todos vieram me apoiar. Na minha oração, eu orava não somente para o parto e
para meus objetivos pessoais como também para o kosen rufu de UK e mundo, para
a vitória, saúde, prosperidade e longevidade dos membros, para meu juramento ao
mestre e para cumprir minha missão como discípula e boddhisatva da terra.
Chegou então
o grande dia! Dia 18 de Janeiro de 2013. Saímos de casa as 11:15 e o caro
estava nos esperando na frente prédio que moramos. Jolly estava carregando
todas as malas, uma com as roupas do Leonardo, uma com as minhas, a mochila com
as coisas dele e o car seat ( Uma cadeira que e obrigatória quando anda de
carro com criança de 0 a 8 anos eu acho). Estava nevando e Jolly teve que por
as malas no carro primeiro e depois voltar para me ajudar a descer as escadas
de cinco degraus do prédio.
Sentia meu coração
batendo acelerado e estava nervosa. Como seria tudo? Apenas me perguntava
constantemente. Estava muito feliz e me sentia mais tranqüila quando olhava
para o Jolly e via o quanto ele estava presente comigo em toda a gravidez e
naquele momento. Todas as vezes que olhava para ele pensava o quanto tinha tido
boa sorte através da pratica e da luta pelo kosen rufu de ter encontrado uma
pessoa maravilhosa como ele para ser meu companheiro e pai do meu filho.
A caminho
do hospital fui olhando pela janela as casas cobertas no telhado de neve e
achei engraçado Leonardo vir ao mundo em um país onde o frio e predominante. Uma
carioca casada com um italiano de Turim, cidade que fica no norte da Itália e
que tinha montanhas cobertas de neve no inverno, e que estava nascendo na
Inglaterra. Que missão teria este menino? Pensei...
Chegamos ao
hospital uns quinze minutos antes de meio dia, horário marcado para eu me
apresentar. A midwife ( enfermeira de grávidas) nos levou para um quarto
particular ate o quarto que seria para mim fosse desocupado. Nossa boa sorte tinha
começado naquele momento porque ate desocupar o quarto que eu ficaria, que
seria junto com outras mulheres, nos ficamos em um quarto privado que seria
pago toda a tarde ate sermos trocado.
Fomos almoçar
na cantina do hospital e quando voltamos a midwife ( enfermeira) veio me dar
uma meia especial para vestir que protegeria minhas pernas e me examinou para
saber com quanto dilatada eu estava. Eu precisava ter 10 de dilatação para que
o Leonardo nascesse de parto normal. Eu estava com 4 de dilatação e depois de
ser posto o gel composto de hormônios, elas verificariam novamente quanto eu
teria dilatado.
Não senti
nada quando ela colocou o gel apenas senti algo gelado dentro de mim. O gel
trabalharia por 6 horas. Se naquelas seis horas meu organismo não reagisse bem
e não dilatasse nada e nem começasse as contrações iniciais, seria posto mais
uma dose de gel seis horas depois e mais uma seis horas depois da segunda. Com
o gel seriam três tentativas. Felizmente o primeiro gel foi suficiente para mim
porque meu organismo reagiu bem e começaram as contrações. No final do dia
fomos transferidos para o local que tinham mais cinco quartos com outras
mulheres que seriam induzidas também.
O quarto
era dividido com cortinas amarelo claro e tinha uma cama, alguns aparelhos médicos
e uma cadeira acolchoada para o Jolly. Minhas contrações começaram bem
fraquinhas e pareciam cólicas menstruais. Elas viam e iam embora de tempo a
tempo. Como gel tinha funcionado bem comigo, as contrações aumentariam daquele
ponto ate o dia de ter o Leonardo, que poderia ser qualquer dia, qualquer hora.
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